A importância da segregação dos resíduos na fonte
Quando falamos em gestão de resíduos, é comum atribuirmos grande importância à coleta, ao transporte e à destinação dos materiais, porém, existe uma etapa anterior que é fundamental para que todo este processo funcione corretamente: a segregação dos resíduos na fonte.
Condomínios, empresas, instituições de ensino, órgãos públicos e diversos outros estabelecimentos possuem realidades diferentes quanto à geração de resíduos, mas todos dependem da participação daqueles que efetivamente geram os materiais para que seja possível realizar uma gestão eficiente.
Não basta disponibilizar lixeiras, contentores ou espaços específicos para armazenamento se os resíduos chegam até estes locais misturados. A separação deve começar no momento da geração, pois é neste momento que temos a melhor condição de identificar o material e destiná-lo ao recipiente correto.
Quando misturamos restos de alimentos com papel, papelão, plástico, vidro, metal e outros materiais, dificultamos ou até inviabilizamos o aproveitamento daquilo que poderia ser reciclado ou destinado a outro processo de valorização. Além disso, a presença de resíduos orgânicos misturados aos demais materiais contribui para a geração de odores, líquidos e atração de insetos e animais.
Em locais onde existe uma estrutura destinada à segregação dos resíduos, cabe a cada usuário respeitar a identificação existente e acondicionar corretamente aquilo que gerou. Caso contrário, transfere-se para funcionários da limpeza, catadores, cooperativas ou outros trabalhadores a responsabilidade de abrir sacos e realizar posteriormente uma separação que poderia e deveria ter ocorrido na origem.
É importante entendermos que a responsabilidade pelos resíduos não termina quando colocamos um saco para fora da nossa residência, apartamento, sala ou estabelecimento. Aqueles materiais continuarão existindo e passarão pelas etapas de armazenamento, coleta, transporte, triagem, tratamento e destinação.
Neste contexto, a própria nomenclatura utilizada também possui importância.
Quando chamamos tudo aquilo que descartamos simplesmente de “lixo”, estamos tratando da mesma maneira materiais que possuem características e possibilidades de aproveitamento completamente diferentes. O lixo é normalmente entendido como aquilo que não possui mais valor ou utilidade, enquanto os resíduos podem ser reconhecidos, segregados e destinados de acordo com suas características.
O conceito Lixo Zero trabalha justamente com a necessidade de enxergarmos estes materiais de outra maneira. Um resíduo orgânico, como restos de alimentos, pode ser encaminhado para compostagem e transformado em composto. Materiais recicláveis podem retornar à cadeia produtiva e serem utilizados como matéria-prima para novos produtos. Já os rejeitos são aqueles materiais para os quais não existem possibilidades viáveis de recuperação e que, consequentemente, necessitam de disposição final ambientalmente adequada.
Por isso, utilizar expressões como “lixo seco” e “lixo molhado”, apesar de ainda ser uma prática comum, pode dificultar o entendimento sobre aquilo que realmente deve ser segregado. Nem tudo que está seco é reciclável e nem todo material orgânico deve ser simplesmente entendido como “lixo molhado”. Quando utilizamos as nomenclaturas “resíduos recicláveis”, “resíduos orgânicos” e “rejeitos”, conseguimos identificar melhor cada fração e seu possível destino.
O Instituto Lixo Zero Brasil utiliza como referência o “Mínimo Três”, que consiste na segregação dos resíduos em, no mínimo, três frações: recicláveis, orgânicos e rejeitos. A partir desta separação básica, outras segregações poderão ser realizadas de acordo com as características dos materiais, a estrutura disponível e as possibilidades de destinação existentes em cada região.
Outro fator importante é o acondicionamento. Após segregados, os resíduos precisam ser armazenados de maneira adequada e permanecer separados até a coleta. De nada adianta realizar a segregação dentro de uma residência ou estabelecimento e posteriormente reunir todos os materiais em um mesmo recipiente ou espaço sem respeitar os diferentes fluxos.
O acondicionamento inadequado também pode comprometer a qualidade dos materiais. Papel e papelão, por exemplo, quando entram em contato com líquidos ou resíduos orgânicos, tornam-se mais pesados, frágeis e podem perder seu valor comercial, dificultando ou impossibilitando sua comercialização pelas cooperativas e demais agentes da cadeia da reciclagem.
Da mesma forma, quando restos de alimentos são colocados junto aos demais resíduos, podem atrair animais ou pessoas que procuram alimentos ou materiais com valor comercial. A abertura dos sacos e a retirada destes materiais podem ocasionar resíduos espalhados pelo local, agravando um problema que, muitas vezes, começou anteriormente com a mistura realizada pelo próprio gerador.
É claro que uma gestão eficiente depende também de uma estrutura adequada, da correta identificação dos recipientes, da frequência da coleta, do armazenamento e da destinação ambientalmente adequada. Entretanto, nenhuma destas etapas consegue substituir a responsabilidade daquele que gera o resíduo.
A responsabilidade na gestão dos resíduos é compartilhada, mas isso não significa que ela possa ser simplesmente transferida para o próximo integrante da cadeia. O gerador possui sua responsabilidade, assim como os responsáveis pelo armazenamento, coleta, transporte, tratamento e destinação possuem as suas.
O conceito Lixo Zero busca justamente uma mudança na forma como nos relacionamos com aquilo que consumimos e descartamos. Antes de pensarmos apenas em retirar os resíduos do nosso campo de visão, precisamos entender qual será o caminho daquele material e o que podemos fazer para que ele permaneça dentro de um ciclo produtivo.
Uma gestão eficiente dos resíduos começa, portanto, com uma atitude muito simples: identificar aquilo que geramos, segregar corretamente e colocar cada material no local destinado a ele.
Se existe estrutura para a segregação, é necessário utilizá-la corretamente. Se existe informação, é necessário observá-la. Portanto, se geramos resíduos, precisamos compreender que também fazemos parte da responsabilidade pela sua correta gestão.
Por Bruno Rodrigues
Administrador / Engenheiro Civil
Membro da Comissão Especial de Sustentabilidade do CRA-RJ
Embaixador e Consultor Lixo Zero Brasil
Em 15 de janeiro de 2023.




